Esse post seria sobre arranjo, mas acabou (como sempre) partindo pra outro lado. Gostaria de dividir com vocês, além da grande oportunidade que me vem sendo dada de aprender e crescer como arranjador nos dois principais projetos em que estou envolvido, alguns pensamentos sobre a postura do músico frente ao mercado e ao seu próprio ofício…
As oficinas citadas no post anterior vem dando origem a alguns grupos que, inspirados pela música e pelas idéias que rolam nos encontros com o Itiberê, se juntaram para somar a experiência adquirida nas oficinas à sua própria trajetória pessoal, utilizando os ensinamentos do mestre Itiberê para dar vazão à sua criatividade… E essa visão do papel do músico dentro do cenário musical que é muito discutida nas oficinas tem um grande impacto na proposta dos grupos que tem surgido por lá. Não estou querendo dizer que quem sai das oficinas é melhor do que ninguém, existem infinitos caminhos que levam o músico a pensar o seu comportamento como postura política, e é disso que estou falando. Na oficina apenas se enfatiza essa necessidade, de que os músicos se organizem em torno de seus próprios projetos, ao invés de simplesmente estudar música para transformá-la em ganha-pão (o que, a priori, não tem absolutamente nenhum problema). O que eu quero dizer é que os rumos que a música brasileira vai tomar (seja ela instrumental ou não) estão - ou deveríam estar - nas mãos dos músicos do Brasil. Só falta a gente (a classe musical) acordar pra isso. E se cada um só pensar na sua carreira individual, e não pensar na música como um todo, a coisa vai ficar difícil…
O que eu vejo cada vez mais é uma postura de culpar o mercado pelo nosso comodismo, pelo pessimismo que tomou conta dos músicos e os mantém reféns da “intuição”e dos ideais de quem tem o poder (leia-se bufunfa), sejam donos de bares e casas noturnas ou executivos de grandes gravadoras… Me parece que algo está errado quando a opinião dessa gente passa a ditar o que deve ou não ser feito musicalmente, o que “as pessoas gostam” ou não… E os grandes culpados disso tudo são os músicos, que aceitam, se curvam e acham que estão se dando bem, ganhando um cachezinho (ou cachezão) pra vender os rumos da nossa música pra esse bando de comerciantes… Sei que a situação do músico no Brasil é muito difícil e que muita gente justifica as porcarias que toca através da necessidade de dinheiro, mas também temos muitos exemplos de gente que batalhou e passou (e passa) pelo que for preciso para manter sua integridade e sua vocação artística intactas. Gente como Hermeto Pascoal, Paulo Russo, Mauro Senise, Itiberê Zwarg, e muitos outros, que vem militando através de sua música por um cenário mais democrático, se recusando em participar de trabalhos comercias para levar adiante a música pela qual são apaixonados e tanto acreditam.
Fico meio encucado quando vejo gente que estudou a vida inteira pra se tornar um bom músico e vende todas as suas horas de dedicação e empenho pra qualquer um que pagar legal, não importando o que o cara vai fazer ou construir com tudo aquilo que ele levou anos e anos pra aprender. Depois o cara não pode, de jeito nenhum, reclamar da estrutura que está aí e das dificuldades pra quem quer mais é fazer som. Isso, no meu entender, é um tiro no pé da própria música, que perde mais um aliado pro poder da grana, que não está nem aí pra idealismos artísticos. Por isso acho que é hora das pessoas pararem de reclamar da vida e começarem a tocar música na qual realmente acreditam, ninguém é obrigado a fazer música, muito menos música ruim. Se pelo menos aqueles que o fazem assumissem sua condição até as últimas consequências, mas não, ficam culpando a vida e o mundo por suas medíocres aspirações musicais. E aí é aquela coisa, um bando de gente tocando com cara de sono, pensando no trocado que vai ganhar depois. Ah não, cara de sono não pode, o contrato não permite… Por isso, prefiro um milhão de vezes ouvir , por exemplo, um grupo de rock composto por músicos considerados “fracos” ou pouco dotados tecnicamente mas que transborde prazer em estar ali e vontade de levar seu som para as pessoas do que ouvir um samba ou chorinho (estilos que eu adoro) tocado por “grandes músicos” de forma burocrática, repetitiva e sem vida, coisa que há de sobra pelas Lapas da vida… Veja bem, não estou metendo o pau nas pessoas que tocam por dinheiro (eu sou uma delas). Seria maluco se o fizesse. Todos nós, há mais de 400 anos, mesmo antes de Bach, trocamos música por dinheiro. Estou reclamando de uma inversão de prioridades que ocorre com alguns músicos e de uma falta de tesão que rola em relação à própria música.
Mas o post é (ou era) sobre outras coisas, e acho que a melhor maneira de cada um contribuir é fazendo o seu melhor e apostar naquilo em que acredita. É como Don Juan perguntava pro Carlos Castañeda, respondendo ao aprendiz sobre que decisões tomar: “Esse caminho tem coração?”
No meu entender, os grupos dos quais sou integrante (assim como inúmeros artistas, muitos deles da música instrumental), têm essa visão. Se alguém vai curtir ou se identificar com o som (o que eu acho mais provável a partir do momento em que a gente acredita naquilo) é outra história, mas entrega não falta e acho que isso se reflete musicalmente. Não falo isso pra me gabar, até mesmo porque eu acho que isso é uma obrigação.
E foi num desses grupos, o Acuri, que comecei minha trajetória como arranjador, esses irmãos de som foram os primeiros malucos a confiar em mim e a me proporcionar essa oportunidade de fazer algo maravilhoso, que é compor e escrever para que meus companheiros músicos toquem e dividam, comigo e com quem ouvir, a alegria que é poder fazer isso. Serei eternamente grato a eles por essa oportunidade. Posso falar sem a menor dúvida que o grupo vem, pacientemente e humildemente, trilhando um caminho bacana baseado na dedicação e na entrega dos integrantes (Cacá Guifer, Ana Carol D’ávila, Vitor Medeiros, Roberto Salgado, Pedro Carneiro, Davi Mello e esse que vos fala), no amor incondicional à música e na vontade incessante de produzir um som instrumental que fuja dos clichês, comodismos, exibicionismos e manias que afastam o público (considerado leigo) desse tipo de música. Abaixo está uma lista de links para as músicas do grupo, além do link para o blog do grupo(com as músicas para streaming e download, videos, notícias, agenda) para quem quiser dar uma ouvida:
DEMO 2 (Outubro de 2005):
1-Cerrado Florido (Roberto Kauffmann)
2-Férias em Recife (Ricardo Sá Reston)
3-Buscapé (Ricardo Sá Reston)
DEMO 1 (Abril de 2004):
1-Caminho de Casa (Ricardo Sá Reston/Rodrigo Penna Firme)
2-Aqui Jazz (Chico Oliveira)
3-Ponte Rio-Niterói (Ricardo Sá Reston)
Blog do Acuri
Esse caminho, sem dúvida nenhuma, tem coração.
Grande Abraço!!!
Obs: escrevi esse post não para me vangloriar nem pra encher a bola do grupo do qual faço parte. Escrevi pra desabafar e falar de uma coisa que está ao alcance de qualquer um, que é querer fazer o som que a gente ama.