Heavy Metal Levado a Sério

Sei que a maioria dos amigos do blog conhece minha falta de pudores e preconceitos quando o assunto é música (apesar de muita gente pensar que só música instrumental brasileira frequenta meu iPod). Pois nesses últimos dias passei por um bem-vindo e saudável revival das músicas que ouvia quando comecei a tocar contrabaixo. Como a grande maioria dos baixistas da minha geração, comecei a me envolver com o instrumento e com música de forma mais intensa através do Heavy-Metal, estilo que exerce atração irresistível sobre alguns jovens, especialmente aqueles com propensão ao subversivo, politicamente incorreto e - em especial - à revolta, cansados das propagandas de margarina na TV e das dores-de-corno e outras baboseiras da famigerada música pop. Estudando em um tradicional colégio de freiras do RJ (ao lado de muitos alunos igualmente tradicionais), naturalmente esse era o meu perfil, e a história não foi diferente.

Sei que o Heavy Metal[bb] é associado à cruzes invertidas, chifrinhos, caveirinhas, calças de lycra(!) e outras esquisitices, mas tenho uma convicção de que o fascínio que ele exerce sobre os jovens (e jovens músicos) não é gratuito. Antes de seguir, gostaria de falar que sei que esse tipo de consideração é sempre muito pessoal, portanto gostaria de lembrar que  essas idéias não passam de despretensiosas impressões sobre as quais gosto de escrever aqui no blog.  

Claro que o grotesco e carnavalesco do Metal (é possível se ouvir as vozes agudas associadas ao estilo ao pronunciar a palavra) vem incluido no pacote, mas penso que existem outras razões para o seu appeal. Além do alto nível de decibéis e distorção, muitas bandas de metal são formadas por músicos virtuosos, altamente capacitados em seus instrumentos, habilitados a produzir desde malabarismos sem propósito a momentos (eternos para os fãs) de grande inspiração e intensidade. Muitos deles são reconhecidos tanto quanto os vocalistas, o que já torna a posição de instrumentista em uma banda mais atraente aos jovens músicos. Muitas vezes as músicas são complexas para os padrões radiofônicos, com longas seções instrumentais altamente trabalhadas e diversas mudanças de clima durante as faixas, algo quase invisível na música pop, especialmente a partir dos anos 80. Esses fatores musicais certamente são irresistíveis para um jovem que engatinha com um instrumento nas mãos.

Mas não é só isso. Se pegarmos os dois discos mais importantes produzidos no final da década de 80, passados os anos (incríveis) mais “mitológicos” da New Wave of British Heavy Metal, “Rust in Peace” do Megadeth[bb] e “And Justice for All” do Metallica[bb], encontramos - além de conteúdo musical denso e altamente bem trabalhado e refinado para os padrões da música pop - um conteúdo nas letras que derruba não só os clichês que perseguem os adeptos do estilo, mas em última instância o esteriótipo do jovem alienado e consumista, preso à rotina previsível da “suburban family life”. Curiosamente, ambos os grupos são de Los Angeles - Califórnia, considerada a Roma do glamour, da vaidade e da fama (basta lembrar de Hollywood), num país onde os jovens são conhecidos por saber pouco mais que nada a respeito de coisa nenhuma.

andjusticeforall.jpg ”And Justice for All…”, de 1988, traz em suas letras diversas questões altamente atuais, como o desepero dos jovens frente a uma vida de plástico e sem perspectivas,  ataca as formas como a balança da justiça tem um equilíbrio (ou falta de) curioso em terras norte-americanas, e discorre sobre a destruição do planeta e como o poder não está nem aí pra tudo isso. 

Frayed Ends of Sanity

copmegadeth06.jpg“Rust in Peace”, de 1990  é ainda mais contundente e atual. Criado às vésperas da Guerra do Golfo, o disco é uma viagem quase conceitual sobre o tema. Seus personagens e histórias retratam um universo populado por chefões da guerra apertando botões sentados em luxuosos escritórios, fraticídio, guerra santa, estações militares onde se despejam rios de dinheiro,  armas químicas, a supremacia de algumas nações sobre as outras e a influência que a grana tem em tudo isso. Claro que tudo sob o ponto de vista apocalíptico que se espera do Heavy Metal, mas tudo muito bem colocado.

Holy Wars

Creio que esse papel contestador político e musical (com os limites e alcances que a música pop tem e deve ter, é claro) foi muito bem representado por alguns grupos de Metal durante os anos 80 (me vem em mente o grande Anthrax, de NY). Os grunges que vieram depois estavam mais preocupados em injetar heroína e relatar seus dramas a respeito de suas deficiências emocionais em tom adolescente e essa turma faz escola até hoje no chamado Nu-Metal. E a música pop segue aparentando viver no mesmo planeta cor-de-rosa e monótono que vemos há tanto tempo nas propagandas de margarina sem colesterol.

Eu avisei que a gente ia levar o lance a sério mesmo :–) Talvez mais do que o assunto mereça… Como disse antes, sei que esse tipo de análise (se é que pode se chamar assim) é sempre duvidosa, alguém tentando falar de forma mais séria sobre rock e música pop - penso naqueles programas da TV a cabo em que doutores falam sobre discos clássicos de rock -  mas como disse antes, são só impressões… Grande Abraço!!

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